Fome.
Tenho fome. Não vou morrer por causa disso, mas a sensação é terrível. E se torna quase insuportável depois de alguns dias.
O acesso a Deus continua perfeito. Se eu conseguisse encontrar algo além dessa grama baixa dos prados e as árvores que identifiquei como urzes purpúreos (Erica purpurea), Deus conseguiria analisar e me mostrar algo comestível.
Pelas montanhas e fiordes, eu devo estar em terras escandinavas. Uma pena o GPS não funcionar — isso significa que estou num período em que não há satélites em órbita.
Posso dizer com tranquilidade que a pior parte do trato foi não indicar em que época eu estaria. Imaginei que surgiríamos separados, mas em minha ingenuidade achei que estaríamos distantes em metros, não em minutos.
Centenas de bilhões de minutos.
Com o estou andando para o Oeste há quatro semanas, seguindo a Estrela D'Alva (você quis dizer Vênus), começo a desconfiar que estou numa região ainda não civilizada ou mesmo habitada.
Sem os satélites, não é apenas a localização que fica indisponível - a previsão do clima, data, hora e comunicação por texto também desaparecem. Obviamente ainda tenho ferramentas muito úteis: a DeusCiclopedia e o RIP - o Reconhecimento de Imagens e Panoramas - me garantem uma vantagem única na minha situação.
Mas não matam a fome.
Talvez eu encontre um animal pequeno. Pensando nisso, acho melhor começar a fabricar umas ferramentas.
Eu ando durante mais um tempo e há um pequeno riacho. Considerando os fiordes, posso dar sorte e encontrar uma cachoeira. Se ela for alta o bastante, as pedras serão lisas e pequenas o suficiente para eu fazer uma machadinha ou uma lança.
Parece outono. Não está frio demais, só esse vento lazarento que nunca me deixa em paz.
— Preciso de um chapéu — digo por dizer.
— Não encontrei nenhuma oferta de Chapéu próximo de você. Por favor ative sua localização.
Eu ativaria, Deus. Se eu pudesse, juro que ativaria.
Mais uns minutos e parece que gastei a sorte do dia. Uma cachoeira e um pequeno lago. Pedras arredondadas e lisas. Um pequeno lago atormentado pela queda d'água. Se gastei a sorte mesmo, haverá peixes.
— Deus, que árvores coníferas são essas?
— Ativando RIP.
— Essas são árvores do tipo Picea Abies, também conhecidas como Abeto-falso, Espruce-da-Noruega, Espruce-europeu ou Pícea-europeia. Quer saber mais?
— Não.
Realmente há alguns peixes pequenos no lago turbulento. Eu apanho algumas pedras e começo a atirá-las nos bichinhos azarados demais para estarem na parte mais rasa.
Esfrego uma das pedras arredondas em outras durante um tempo, talvez uma hora ou mais. Consigo abrir os peixes com ela. A carne é clarinha. Talvez sejam trutas. Não importa.
A fome passou.
Começo a arrancar tiras das cascas das árvores próximas. Vou deixá-las na água até amanhã e quem sabe consigo amarrar essas pedras num galho e terei uma arma. Se eu conseguir quebrar uma em lascas, consigo fazer uma adaga. Me ocorreu uma coisa:
— Deus, identifique essa rocha usando uma análise geológica.
— Analisando. Aguarde.... Me parece um gabro, rocha ígnea intrusiva ou plutônica. A análise espectográfica indica uma idade de 11.725 anos anteriores à minha última atualização.
Ótimo. Então estamos na Escandinávia em 9500 antes de Cristo. Maravilha!